sábado, fevereiro 26, 2005

A memória - LM, princípios dos anos 70's

... a memória dum tempo em que Malangatana, para compor meses que eram grandes demais para os ganhos dum artista, ganhava uns cobres extra como apanha-bolas no campo de ténis do central ex-Jardim Vasco da Gama e hoje com o nome feliz de Jardim Tundurú. Ainda por cima um artista negro, num ambiente colonial que, embora não cego e surdo à cultura era muito daltónico quando olhava para os seus intérpretes.
Eu, que lá vivi, rio-me com amargura do que esta referência numa reportagem no 'Expresso' (que abaixo transcrevo na parte em causa) me fez recordar; uma expressão que se ouviu 'n' vezes nas cervejarias e restaurantes de LM após o 25 de Abril de 1974 e, muito principalmente, após a formação do governo de transição para a independência da colónia de Moçambique, quando se começaram a ver negros sentados na zona das melhores mesas em vez do canto onde lhes eram 'reservadas' uma ou duas ou um canto do balcão, nos restaurantes onde antes estavam sempre em pé e de bandeja na mão: "também têm direito, temos de nos habituar". Este 'temos de nos habituar' fala tanto por si, como quem se conforma por o médico dizer-lhe que tem uma doença incurável e a sua qualidade de vida será afectada, ou quando morre alguém na família e nos consolamos com tiradas filosóficas sobre a vida que continua...
E também me recordo do contrário, após a independência. Numa cervejaria que eu e o meu grupo frequentávamos há 'anos' subitamente passamos a ver a nossa mesa como a última a ser atendida e com cara de má vontade. Nela e por isso, tive uma das poucas manifestações exteriores de desagrado com o novo racismo que eclodia, por alturas da decisão íntima de procurar ares mais livres antes de me tornar culpado de existir e ter a cor de pele errada no momento que queria viver como o certo, o início do Futuro. Os pedidos e sinais para sermos atendidos eram ignorados e até alvo de chacota à sucapa noutras mesas, que se iam enchendo e esvaziando, e nós ignorados mesmo após um ter ido fazer o pedido ao balcão. Uma raiva que crescia em mim, uma sensação de ser(-mos) vítimas duma injustiça e dum comportamento que todos lutávamos por que nunca mais existisse, fez-me dar o tal murro na mesa, autêntico e de punho fechado, instintivo e portanto com estrépido acrescido que soou na sala como grito codificado de "Chega! Assim não!"
A outra vez que recordo foi numa tarde de fim-de-semana, no largo passeio em frente ao Hotel Moçambicano e onde deixávamos os carros e as motas estacionadas. No outro lado da avenida, no passeio fronteiro ao restaurante Chouriço Assado, um velho demente e vadio, um cromo daqueles que todas as cidades têm (e antes também tinham, quando a hipocrisia social não permitia visibilidade aos sem-abrigo) refila com um grupo de miúdos que se metem com ele, uma cena normal enquanto houver miúdos de rua e velhotes que embirrem com eles. Este, de que já não recordo o nome ou alcunha por que era conhecido em toda a cidade, grita com eles e ameaça-os, até ensaia um ou outro gesto mais ameaçador, alça a perna a preparar pontapés e cerra punhos no meio de gritos e insultos, no seu linguarajar de solitário irascível e louco.
Toda a cidade viu este filme do velho e dos miúdos vezes sem conta, o largo passeio onde o fresco decorre é piso habitual do velho e os miúdos também não são de todo estranhos à zona. Nós, do outro lado, estamos em grupo à conversa, encostados aos carros e ouvindo música de cassetes. A cena é tão corriqueira que mal se lhe presta atenção, por certo uns comentários humorados sobre os miúdos e o velho, um a recordar outra história qualquer com o velho e nada mais. A nossa cavaqueira continuou e, visualmente, iam-se acompanhando as peripécias.
É aí que surge a chamada de atenção de um de nós, sei lá quem, e todos nos viramos para olhar o que se passava com o velho e os miúdos. Estes, principalmente uns já bem matulões, rapazolas já com corpo duns treze, catorze anos, exercitavam a sua corrida partindo de locais opostos em redor do velho e, quando por ele passavam, lado das costas, claro, aí exercitavam o murro e o pontapé de fugida, vulgo ataque cobarde. E como eram vários e o velho era só um e velho, os seus gritos já deixavam o tom monocórdio habitual, ladainha de louco refilão, e o medo assomava em gritos que se misturavam com os deles, os miúdos: "branco de merda! maluco! vai-te embora! andaste a roubar mas agora vais pagar". Foi o outro momento, outro 'click' que tive: atravessei a rua a correr e corri eu com os miúdos com ameaças de os socos e pontapés se voltarem contra eles, ora eu aos gritos : "vocês são loucos? é um velho, é só um velho louco que não tem culpa de nada". Certamente porque eu tinha as costas quentes pelos amigos que estavam encostados aos carros, inconscientemente pois não raciocinara e a minha intervenção foi instintiva, o grupo dos miúdos fugiu.
Mas deixo estas más memórias e passo a transcrever a notícia que as avivou. No suplemento 'Actual' do tal semanário, a fls. 44 e 45 está uma reportagem com o título "As escritas que correm", que versa sobre o encontro de escritores na Póvoa do Varzim. Dela extraio o motor da amarga viagem ao passado:
"... Na véspera fora inaugurada a bela exposição de pintura e desenho de Malangatana , "Escritas de Cor", apresentada por Urbano Tavares Rodrigues. O moçambicano e o português são velhos conhecidos e amigos; o primeiro recorda que há trinta e poucos anos Urbano o levou a um restaurante de Lourenço Marques onde uma refeição partilhada por um negro e um branco podia ser um escândalo. "Foi no Hotel Tivoli", diz-me Urbano. "A certa altura, sem o Malangatana ouvir, tive de dizer ao empregado que tivesse maneiras."
Na cervejaria e no passeio defronte ao Chouriço Assado a minha paciência com a falta de maneiras estava a estoirar.

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Interessante de ler. Eu, vá-se lá a saber porquê, nos restaurantes que frequentava nunca sofri cenas dessas, no pós-independência... _ beijo, muf' esquerda caviar...

domingo, fevereiro 27, 2005 1:21:00 da manhã  

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